Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Opinião

Mário, sinto saudades suas….

por Graça Franco

Mário Mesquita não era um amigo. Era muito mais. Estava naquela plataforma superior onde se instalam certos espíritos de que bebemos as palavras antes de bebermos o café acidental que nos reúne.
Mário Mesquita era muito amigo de alguns amigos meus e isso tornava-o uma figura esfíngica que, embora pudesse encontrar-se em fato de banho a desfiar uma dourada, tinha a capacidade permanente de conectar o Tico e o Teco (os dois únicos neurónios que ainda tínhamos acordados num fim de tarde de Verão), para rir com ele e passar em revista toda a sociedade e política portuguesa, com um sarcasmo fininho que nos fazia concluir que um espírito lúcido faz mais pelo país do que as cem mil comendas vagamente bafientas, distribuídas ao ritmo do calendário cerimonial.
Falei com ele a semana passada. Descansei quando recebi a notícia de que ontem correra bem a temida intervenção, lembrei-me que o animara a preparar-se para umas largas semanas de vários incómodos e ele me confessara ser “muito mariquinhas” (como antes se dizia! - advertiu em seguida) não fora eu, 40 anos depois de o conhecer, atribuir-lhe algum tique homofóbico nestas coisas de doenças. Sobretudo, quando todos sabíamos do seu hipocôndrismo.
Anteontem, no parque da Quinta das Conchas, ao ser entrevistada para uma série sobre mulheres, falara dele como “o provedor que tanto gostaria de imitar”. Na semana passada eu ligara-lhe a pedir um favor: “Professor, pode ouvir os meus programas “Em nome do ouvinte”? Estou a fazer um balanço e queria que me desse umas ideias sobre o que falta fazer”.

Do outro lado, o sorriso e o silêncio: “Não lhe prometo nada, mas mande-me lá o link, que eu vou tentar”. “Não se canse Mário… - balbuciei a medo - A sua saúde é muito mais importante”. E ele rápido, quase premonitório: “Não, Graça. Vou ouvi-los já. Conte comigo. Ouço-os de certeza”. Horas depois um SMS: “Consegui ouvir dois, estão ótimos! Para mim chegava”. Mesquita nem por simpatia aprovaria um texto que lhe parecesse medíocre ou mau.

Choro, enquanto escrevo. Não faz mal. Aprendi tanta coisa com ele. Tanta coisa importante. Que quando o telefone tocou a dizer-me baixinho “O Mário morreu…” poucas horas depois das boas notícias iniciais, não queria acreditar que não poderia mais aprender com ele, sempre, eternamente e muito mais.

O estranho dever do ceticismo e o valor da mágica palavra “disse”, que levou três horas a explicar numa das primeiras aulas de Ciências de Informação na Católica. “Disse é disse!”. Nunca mais o esqueci. “Não é afirma, nem denúncia, nem alerta nem revela, nenhuma dessas muletas a que o jornalista recorre só para não repetir a simples e digníssima palavra “disse” quando alguém apenas, nos disse, alguma coisa”.

Quando o Mário foi iniciar o curso de Comunicação Social na Universidade da Beira Interior, herdei as duas cadeiras que deixara na Universidade Nova em Lisboa. Um orgulho. Herdei as cadeiras, os apontamentos, os papeis, os índices das matérias, os truques para manter os alunos acordados às 8 horas da manhã. 

Ele que tinha um frustrante tom monotónico desde os 29 anos, algures na provecta idade em que o conheci, e que só não fazia adormecer o mais espevitado dos ouvintes, porque à terceira frase punha a funcionar por magia a sua sarcástica lucidez e com isso já conectara o “tico” e o “teco” dos mais ensonados.

Enquanto escrevo choro. Não faz mal. O Mário conhecia a minha fé em Deus e eu conhecia a sua falta de fé na humanidade. Conheci a Clotilde e depois a Ana e vi a foto da Cecília no nosso último almoço. A neta que no dia da morte do avô fazia anos. Era a sua nova razão de vida. Continuará a ser. Hoje ao encontrar-se com o meu Deus devem ter-se esfumado as suas reticencias e pragmático deve ter correspondido ao seu abraço amigo:

- “Mário já tinha saudades tuas!”

- “Então Existe? Muito gosto”. 

Mário já sinto saudades suas…choro a escrevê-lo. Não faz mal. Sei que já está com Ele.


Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


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