Quinta-feira, 11 de Agosto, 2022
Opinião

Professor antes de o ser

por Silva Pires

Conhecemo-nos num fim de tarde cinzento, estava o DN suspenso, na sequência do 25 de Novembro de 1975. Victor Cunha Rego e Mário Mesquita, indigitados para a direção, chamaram-me para darem conta do seu projecto para o futuro do jornal.
Era um jovem, ouvi-os quase deslumbrado, havia outra linguagem, objectivos, um rumo no sentido por mim tido como certo, mas aquilo que me impressionou foi constatar que o futuro director-adjunto era quase tão jovem como eu – tinha mais três anos, e eu contava 24…
Vindo do tempo dos mestres, aprendizagem diária na banca, complementada por algumas leituras e a discussão possível, quando saí da reunião, na velha sala da Direcção do edifício da Avenida da Liberdade, dei comigo a pensar se ele não seria novo de mais para a tarefa…
Foi um dos piores juízos de valor sobre alguém na minha experiência profissional. O açoriano que era incapaz de esconder a timidez, que até parecia carregá-la como um peso naquele ar ensimesmado, revelou-se como uma das maiores referências e exemplos na minha passagem de 40 anos inesquecíveis no “Diário de Notícias”.
Entre o director-adjunto e o director – passou ainda João Gomes pelo cargo e Dinis de Abreu asseguraria o lugar de director-adjunto – fui indicado por ele para a equipa de chefia do DN e foi então que estivemos mais próximos, principalmente nas reuniões diárias, ao fim da tarde, para dar conta do jornal que fazíamos e preparar a primeira página. Ele ouvia, falava pouco e como sempre havia de fazer – decidia.
Neste tempo, em que a memória anda moribunda no mundo dos media, pode passar ao lado da tristeza pelo desaparecimento de Mário Mesquita o sopro de ar fresco, a modernidade que ele trouxe ao “Diário de Notícias” e, por arrasto da concretização de um jornal de referência, à Imprensa portuguesa.
O jornalista-director foi mais do que rebeldia, inconformismo, independência e rigor. Por isso, o Homem que não foi “yes man” nem precisou de “yes men”. Deixou um legado que passa por uma variada colecção de suplementos – entre eles o “DN Jovem” que revelou tantos talentos da actualidade –, a revista de domingo e até a experiência das duas edições diárias (1979/80), levando a venda do jornal à saída dos espectáculos nocturnos em Lisboa. Além disso, colunas e páginas especiais (entre elas a minha “prenda”, o “Mundo Automóvel”). Um jornal sempre mais rico e empenhado em ir muito para lá do diário das notícias.

Quando nos lembramos que passaram, nalguns casos, mais de 40 anos sobre alguns destes factos, é fácil admitir aquilo que Mário Mesquita ofereceu aos jornalistas do DN:  a possibilidade de novas abordagens na missão de informar e no simples acto de pensar enquanto repórteres e redactores. Era uma Redacção em mudança, mais jovem, grupo empenhado  em, como ele, fazer mais e sempre melhor, mesmo que se desenhassem tendências diferentes de olhar o futuro.

Mas Mesquita foi mais longe. Lançou o tabloide dominical e, quase contra todos, decidiu – e bem, como veio a provar-se –, pela adopção definitiva do formato, um anos depois, em Maio de 1984. O “broadsheet” passava a história, aliás, numa antecipação do seu desaparecimento e substituição pelo ”berliner”…

Entre as decisões importantes relacionadas com aquilo que deve ser um jornal de referência está a novidade da criação em Portugal de um Gabinete Editorialista. Foi mais um passo arrojado e marcante da passagem de Mário Mesquite pelo DN e, no fundo, da sua ideia do Jornal. A partir de Abril de 1980, havia dois editoriais diários, não assinados, propostos por consenso dos membros do gabinete. O seu jornal tinha voz, uma posição, naquilo que de mais importante se passava por cá e no mundo!

Haveria muito mais para dizer sobre este processo quase contínuo de mudança que Mário Mesquita imprimiu ao DN. E que incomodou muita gente, até no PS, do qual - importa lembrar - era fundador e representou, como deputado, na Constituinte.

O jornalista prevaleceu sempre sobre o mais e ele até teve ocasião de o deixar claro num editorial partilhado com Dinis de Abreu, quando alguém do PS se atreveu a propor a substituição da direçção do DN, e no qual se denunciava o “manobrismo de bastidores” impróprio do momento democrático. E impõe-se recordar uma frase que deixava tudo claro: “O DN é do Estado, não é dos governos”.

Em Outubro de 1985, Mário Mesquita anunciou que abandonaria o Diário de Notícias. Fazia-o por vontade própria, não partia vencido, mas dez anos bastavam. Na despedida, em 28 de Fevereiro de 1986, escreveu: “Creio que por aqui, no DN, a honestidade foi desejada – e impôs-se. A minha esperança é que deixe rasto e se prolongue no futuro. Sem jornalismo escrito competente, exigente e honesto, a democracia será sempre incompleta e insuficiente. E sem o DN, ou com um DN servil e subjugado, a Imprensa portuguesa ficaria, irremediavelmente, mais pobre. Isso não sucederá. não pode suceder”.


Como sabemos, nem tudo foi de encontro aos desejos de Mário Mesquita. Mas aqueles que trabalharam sob a sua direcção e que gostaram e gostarão sempre do DN, não o podem esquecer nem desligar de uma fase decisiva na história e credibilização do “velho” matutino.

Pela minha parte, ao Mário Mesquita devo um sentido obrigado.  Dele guardarei – como outros da minha escola –, a recordação de um professor competente, daqueles que nunca esquecemos, um grande professor antes de o ser, na brilhante carreira académica que protagonizou ao serviço do jornalismo.


Connosco
A era digital e as alterações do conceito de jornalista Ver galeria

Com as vagas de desinformação que começaram a circular “online” nos últimos anos, passou a ser necessário partilhar, com eficácia e clareza, as definições de “notícia” e de “jornalista”, para que o público consiga acompanhar as profundas transformações do mundo mediático,  considerou Sabine Righetti num artigo publicado no“Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, explicou a autora, se, há dez anos, a produção noticiosa era um papel exclusivo do jornalista, que colaborava com títulos informativos, actualmente, qualquer um pode escrever um artigo, partilhando-o através das redes sociais.

Ou seja, hoje em dia, é preciso ressalvar que nem todo o utilizador da internet que partilha uma peça, de cariz informativo, pode ser considerado um jornalista. E que, por outro lado, nem todo o cidadão com actividade declarada como jornalística cumpre as normas deontológicas, confundindo-se, por vezes, com um activista.

Portanto, considera Righetti, há,  agora, uma hibridização do conceito.

Por isso mesmo, definir quem é, ou não, um jornalista, é uma tarefa cada vez mais difícil de concretizar, explicou a autora. Isto porque, já nem os documentos legais são considerados válidos, perante o panorama actual.

Neste âmbito,  Righetti recorda que, no Brasil, conceito de jornalismo foi definido  por um decreto, de Março de 1979, que instituiu que a profissão de jornalista compreendia actividades como “redacção, condensação, titulação, interpretação, correcção ou coordenação de informação a ser divulgada” ou “comentário ou crónica, a serem partilhados através de quaisquer veículos de comunicação”.

Além disso, naquela época, a “empresa jornalística” era um elemento central da actividade. O jornalismo, então, era tudo aquilo feito nos  “media” formais. 

E mais: o exercício da profissão de jornalista, de acordo com a legislação, exigia o registo prévio no Ministério do Trabalho, mediante a apresentação do comprovativo de nacionalidade brasileira, do  diploma de curso superior de jornalismo e da carteira de trabalho.

Em  2009, relembra a autora, o STF (Supremo Tribunal Federal) retirou a exigência do diploma para o exercício da profissão. Ainda assim, as empresas de jornalismo contratavam, na sua maioria, colaboradores especializados para fazer jornalismo.

Só que o jornalismo, continua Righetti, cada vez mais, começou a sair das “empresas jornalísticas” e ganhou outros espaços que a legislação das décadas de 1960 e 1970 jamais poderia ter previsto.


Os leitores de imprensa e o que procuram nos títulos informativos Ver galeria

Os leitores de notícias podem dividir-se em seis categorias, dependendo das suas necessidades e interesses, concluiu um relatório do “Financial Times”, citado pelo"Laboratório de Periodismo”,  cujas conclusões podem ajudar outros “media” a reter subscritores.

De acordo com o estudo, por norma, os cidadãos consultam os títulos informativos com um de seis objectivos: manterem-se actualizados, alargarem a sua contextualização sobre o mundo que os rodeia; educarem-se sobre um determinado tópico ou personalidade; divertirem-se através de artigos lúdicos ou actividades didácticas; inspirarem-se ao lerem histórias sobre alguém que superou adversidades; e seguirem as tendências do mundo ‘online’.

Assim, a fim de terem sucesso junto do público, explica o documento, os jornais devem identificar a categoria com a qual a maioria dos seus leitores se identifica, para que possam continuar a captar o seu interesse, gerando um maior número de subscrições e, consequentemente, mais receitas.

O “Financial Times” realizou esta experiência junto de três editoras distintas, ajudando-as a compreender aquilo que poderiam fazer para optimizar a interacção com o público.

A editora 1, por exemplo, concluiu que 40% dos artigos que produzia eram da categoria “actualize-me”, mas que estes geravam, apenas, 13% de visualizações de página. Por outro lado, os artigos da categoria “entretenimento” representavam 19% do total de artigos publicados, mas, geravam 43% das interacções.


O Clube



Este espaço do Clube Português de Imprensa vai fechar para férias durante o mês de Agosto.
É uma opção adoptada desde o lançamento do site em Novembro de 2016.
Recorde-se que o site se divide em três grandes áreas de conteúdos, com uma coluna de opinião a cargo de jornalistas e investigadores das Ciências de Comunicação, resumos informativos e propostas de reflexão sobre as grandes questões que se colocam hoje na paisagem mediática e à função jornalística.
O site do CPI conta, ainda, com as parcerias do Observatório de Imprensa do Brasil e da Asociacion de la Prensa de Madrid, dos quais publica regularmente trabalhos de análise em diferentes perspectivas, desde a ética profissional aos efeitos das mudanças tecnológicas.
O CPI, associação reconhecida de Utilidade Pública fundada em Dezembro de 1980, integra o Prémio Helena Vaz da Silva, instituído conjuntamente com o CNC-Centro Nacional de Cultura e Europa Nostra, e lançou em 2017 o Prémio de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o Jornal Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares.
O Prémio de Jornalismo da Lusofonia, cuja atribuição foi interrompida devido à pandemia, destina-se a jornalistas e à imprensa de língua portuguesa de todo o mundo, "em suporte papel ou digital", de acordo com o regulamento.

Ao concluir mais um ciclo de actividade do Clube e do site em particular, é muito gratificante saber que, apesar dos sobressaltos e das incertezas que afectam os media, o número de frequentadores habituais deste espaço tem vindo sempre a aumentar e a consolidar-se, designadamente, na sua visibilidade internacional, medida pela Google Analytics.

Aos associados, amigos e visitantes deste site o CPI deseja boas férias! E até Setembro.


ver mais >
Opinião
Agenda
05
Out
The Publisher Podcast Summit
09:00 @ Proud Cabaret City, Londres
06
Out
News Impact Summit
10:00 @ Praga, República Checa