Quarta-feira, 5 de Agosto, 2020
Media

A implosão do jornalismo como o conhecíamos e as alternativas para a crise da Imprensa

A presente crise do jornalismo, nos EUA, é não só uma ameaça à democracia como uma questão premente de “segurança nacional”. Quem põe a questão nestes termos fortes é o jornalista americano David Sassoon, que defende como resposta a criação de pequenas empresas de jornalismo não lucrativo e explica os sete motivos da sua viabilidade e vantagens.

Recolhemos esta reflexão do Global Investigative Journalism Network, que por sua vez a reproduz com autorização do site fundado pelo autor, InsideClimate News.

O autor começa por descrever a “implosão do jornalismo como o conhecíamos”, traduzida em “dezenas de milhares de jornalistas que perderam os seus empregos nesta última década”:

“Nos cerca de 1.400 jornais diários existentes nos Estados Unidos, encontram-se a trabalhar 33 mil jornalistas, quando em 2007 eram 55 mil.”

 

David Sassoon propõe depois uma imagem pertinente:

“A Imprensa livre é o órgão da transparência e da responsabilidade. Mantém a democracia livre de toxinas, funcionando como o fígado do nosso corpo político. Sem ele, entramos em disfunção metabólica e afogamo-nos no nosso próprio veneno.”

 

O problema, como diz com alguma ironia, é que, embora a Primeira Emenda [da Constituição dos EUA] identifique o direito a uma Imprensa livre, não garante nem explica como será paga: “Uma Imprensa livre é um atributo fundamental da liberdade mas, sobre a questão de ser um projecto lucrativo, a Constituição é omissa.”  

O autor reconhece que o jornalismo não lucrativo não será uma “cura completa” para tudo o que nos aflige mas, pelo menos, já “provou ser um tónico poderoso para o doente”.

 

Dos seus sete pontos em defesa de um jornalismo não lucrativo, os primeiros cinco explicam como é que este tónico não lucrativo funciona:  1 – A sua única missão é a prática do jornalismo,  2 – Os recursos são usados de modo mais eficiente,  3 – Resiste às pressões que comprometem a independência editorial,  4 – Só sobrevive com elevados padrões de jornalismo,  5 – Desenvolve competências e conhecimentos especializados nos nichos de informação referidos no ponto anterior.

 

Os últimos dois pontos são também dois apelos:  6 – O jornalismo não lucrativo precisa do apoio dos seus leitores e...  7 – Precisa, também, de algum mecenato.

David Sassoon fala da entrada de Jeff Bezos no Washington Post e propõe:

 

“Ao próximo ‘anjo’ com esse dinheiro para gastar em jornalismo, aqui fica uma sugestão:  funde 50 projectos não lucrativos, dê a cada um cinco milhões de dólares em dinheiro de lançamento e deixe-os rodar. Mesmo que só sobreviva um terço ou um quarto deles, seria um grande investimento no futuro do jornalismo americano.”

 

O texto original de David Sassoon, no GIJN, e o site InsideClimate News

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Opinião
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Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena