Sábado, 15 de Agosto, 2020
Media

O poder dos caricaturistas de Imprensa é uma “arma de distracção maciça”

O jornal Le Monde organizou um debate sobre o poder do desenho de Imprensa, que teve o seu ponto alto numa mesa-redonda com quatro caricaturistas, animada por Plantu, por ocasião do décimo aniversário da associação Cartooning for Peace. O mesmo Plantu que esteve entre nós, em Lisboa, para receber o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, ex-aequo com Eduardo Lourenço, numa cerimónia que é apresentada noutro local deste site. O texto do Le Monde descreve a sua obra, em muitos países, como “um verdadeiro trabalho de resistência”: “Desde as fatwas lançadas contra os caricaturistas dinamarqueses em 2005, e depois das matanças de 2015, sabemos alguma coisa a esse respeito”.

Dos quatro caricaturistas que estiveram nesse debate em directo, no Anfiteatro da Opéra Bastille, em Setembro, três são mulheres:

A tunisina Nadia Khiari, que assina Willis, é autora de muitas crónicas sobre a “revolução de jasmim” e publica os seus desenhos no Siné Mensuel, Courrier International e Zellium. O número de leitores que seguem as suas crónicas de amargura subiu rapidamente a mais de 41 milhares. Entre outras distinções internacionais, recebeu em 2015 o Prix Agora Med du Dialogue Interculturel Méditerranéen

Firoozeh Mozaffari é iraniana, estudou desenho em Teerão e trabalhou em jornais como Shargh, Eternad, Farhikhtegan, e no site Khabaroline. Entre outros prémios pelo seu trabalho, faz parte de um grupo de quatro caricaturistas que foram distinguidos por Kofi Annan. Pertence ao comité executivo da Bienal Internacional de Desenho de Imprensa de Teerão, mas boicotou  este acontecimento aquando das violências que se seguiram às eleições presidenciais de 2009.

Louise Angelergues, que assina Louison, é francesa. Estudou nos Ateliers de Sèvres, em Paris, e revelou-se na revista Marianne, onde continua a trabalhar. Publica também no site de L’Obs, Voici.fr, a revista Cheek e Le Monde des Ados. Mantém um blog no Le Monde.

Michel Kichka, nascido na Bélgica, é um dos representantes mais conhecidos da caricatura israelita. Deixou os seus estudos de arquitectura para se fixar em Israel, onde trabalha como ilustrador, autor de BD e “cartoonista”. Colabora em vários canais de televisão israelitas e franceses e ensina Belas-Artes em Jerusalém.

O texto de apresentação deste debate, pelo Le Monde, descreve o poder dos caricaturistas como um poder de denúncia, de análise, de questionamento sobre a realidade e, frequentemente, um contra-poder. Em certos países, e em certos regimes autoritários, os caricaturistas fazem “um verdadeiro trabalho de resistência”.

“No entanto, como gosta de lembrar Kichka, o desenho de Imprensa, ao contrário das armas de destruição maciça, é uma arma de distracção maciça’... (...) Pelo exagero gráfico, o desenhador realiza um trabalho de jornalista: ele deforma a realidade para dizer a verdade. Barómetro da liberdade de expressão, alívio dos nossos males, o poder do desenho de Imprensa não será, antes de tudo, pacificador?” 

O texto de apresentação do Le Monde, que tornou também disponível o vídeo da mesa-redonda animada por Plantu

Connosco
A missão dos jornalistas é "controlar" o Estado para evitar a tirania em tempo de crise Ver galeria

As catástrofes sociais, paradoxalmente, podem ser benéficas para os jornalistas e para as empresas mediáticas, já que reforçam a importância de um serviço noticioso de qualidade para a segurança dos cidadãos, bem como  para o escrutínio do poder, defendeu José António Zarzalejos num artigo publicado nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Isto porque, perante uma situação catastrófica, os jornalistas anulam os discursos “anti media”, que visam descredibilizar o papel da imprensa, rotulando-a como difusora de “fake news”.

Ora, se a missão dos “media” fosse, de facto, enganar a sociedade, os jornalistas não teriam contribuído para a segurança dos cidadãos durante a pandemia, mas, sim, para o reforço de “teorias da conspiração” e outras formas de desinformação.

Sem os jornalistas, como agentes determinantes no espaço público -- defendeu o autor -- a pandemia teria sido completamente desregulada e ter-se-ia tornado uma praga incontrolável. 


Turquia controla nas redes sociais e condiciona liberdade Ver galeria

O parlamento turco aprovou um projecto de lei que reforça o controlo das autoridades nas redes sociais, um diploma controverso, que suscitou preocupações entre os defensores da liberdade de expressão.

A lei exige que as principais redes sociais, incluindo Twitter e Facebook, tenham um representante na Turquia e que cumpram as ordens dos tribunais turcos, no que toca à remoção de  conteúdos, sob pena de multas pesadas.

Segundo o Presidente, Recep Tayyip Erdogan, as medidas são necessárias para combater o cibercrime e proteger os utilizadores de “injúrias”, salvaguardando, também, o “direito à privacidade”.

A lei deu os primeiros passos em Abril, mas acabou por ser retirada da agenda política. No início de Julho, o Presidente da Turquia insistiu na necessidade de “pôr ordem” nas redes sociais, depois de a filha e o genro terem sido alvo de insultos no Twitter.

O gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos defendeu, entretanto, que a nova legislação “vai minar o direito das pessoas a comunicar anonimamente”.


O Clube


À medida que prossegue o desconfinamento, apesar da  persistência de sinais que não nos libertam do sobressalto, a vida tem retomado a normalidade possível – ou a nova normalidade. 

Este site tem-se mantido activo, com actualizações diárias mesmo durante o período da emergência e da calamidade, recorrendo ao teletrabalho dos colaboradores do Clube. 

A recompensa, como já mencionámos, foi um expressivo crescimento de contactos, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares,  com mais 50,5% de sessões , comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Com este conforto,  e a diminuição habitual da actividade em Agosto, é a altura do CPI e deste site fazerem uma pausa de férias, com reencontro marcado, para o próximo dia 31, com os seus associados, parceiros, mecenas e  outros frequentadores regulares.

Cá estaremos para continuar a dar conta das iniciativas do Clube e de tudo o que de mais relevante se passar, em Portugal e no mundo, relacionado connosco,  em matéria de “media”, jornalismo e jornalistas. 

Atravessamos um período particularmente complexo  e cheio de incertezas. Mais uma razão para falarmos de nós e dos problemas que se colocam às redacções, cada vez mais condicionadas pelas vulnerabilidades das empresas editoras e pelos seus compromissos de  sobrevivência que, não raramente, agravam a sua dependência. 

Com uma crise sanitária e económica de contornos invulgares, que este Agosto sirva de reflexão nas férias possíveis. E até ao nosso regresso.



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Opinião
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No meio de transferências milionárias, ao jeito do futebol de alta competição, em que se envolveram dois operadores privados de televisão, a paisagem mediática portuguesa, em vésperas da primeira  “silly season” da “nova normalidade”, está longe de respirar saúde e desafogo. Se a Imprensa regional e local vive em permanente ansiedade, devido ao sufoco financeiro que espartilha a maioria dos seus...
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Uma certeza que nasceu nos últimos meses é a facilidade com que as pessoas mudam de hábitos. Em consequência o comportamento face ao consumo de conteúdos está a modificar-se cada vez de forma mais rápida e os mais novos são claramente os que com maior facilidade adoptam novidades. Durante o confinamento e a explosão de uso da internet houve uma aplicação que ganhou destaque em todo o mundo – o Tik Tok. Trata-se...
Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
Agenda
14
Set
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
18
Out
Conferência World Press Freedom
10:00 @ Países Baixos -- Hague
26
Out
Conferência Africana de Jornalismo de Investigação
09:00 @ África do Sul - Joanesburgo
10
Nov
Digital Media Europe 2020
10:00 @ Áustria - Viena